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Parte 2/2
O CAMPO DAS IMAGENS
O
que é meu e o que está em mim?
O
campo das imagens se enquadra perfeitamente bem nesse enfoque.
É como se o processo de aprendizado se iniciasse sempre
através de cópias. O ato de mamar, por exemplo,
é instintivo e prazeroso. Quando a doadora se entrega completamente
ao ato de dar o seu leite e o bebê se satisfaz mamando,
há uma alegria no ar. Houve uma interação
no ato e quem doa manifesta seu contentamento com palavras, gestos
e/ou carinhos. A continuidade deixa registrada no bebê que
o mamar preenche a doadora e ele, o bebê, descobre um poder
implícito no ato: ele pode ou não satisfazer o outro.
Depende dele instalar a alegria ou a preocupação
no rosto de sua cuidadora. Assim é com o sorriso, com os
olhares, com os primeiros sons, as primeiras palavras e os primeiros
passos. Tudo é importante para o ser recém chegado.
Seu computador interno está sendo alimentado com todo tipo
de informação e cada arquivo será aberto
sempre que, na vida, alguém ou algo acesse aquele ponto.
Na realidade, somos, por absoluta necessidade afetiva, jogadores
de primeira linha e nosso treinamento nessa arte teve início
ao chegarmos ao mundo. Daí em diante, numa interminável
e dolorosa seqüência de desastrosas experimentações,
utilizaremos todos os tipos de jogos para conseguir o que queremos
com o outro, neste inimaginável cassino imposto pelas regras
do mau viver nas relações humanas.
Carregamos em nosso inconsciente o registro de tudo que ficou
marcado, de bom ou mau na nossa existência. Cada página
de nosso livro está decorada pelas imagens que ficaram
expressas do que vivemos. Se pudéssemos, de forma natural,
observar melhor cada figura, ficaríamos surpresos ao encontrar
uma especial semelhança entre elas. Algo muito particular
e que restringiria todas as figuras a um pequeno grupo de personagens
com quem entramos em relação num passado bem remoto
de nossa atual existência. O mais surpreendente e assombroso
é descobrirmos que essas poucas figuras míticas
reverberaram nos nossos outros encontros, e possivelmente continuam
nos dias de hoje, atravessando-os e interferindo neles, numa roda
viva de repetições e em razão disto, constatarmos
que foram muito poucas nossas autênticas relações.
Resta sabermos agora com quem efetivamente nos relacionamos. Com
a pessoa ou com a imagem que fazemos daquela pessoa? De certo
modo é até um pouco fácil descobrirmos. Basta
que peguemos, como exemplo, alguém de nossa mais íntima
relação e passemos a observar suas ações,
seus gestos e sua postura, como nos sentimos diante delas e o
que se passa, a nível de reação em nosso
interior. A partir daí, é só buscarmos nos
nossos arquivos de imagem que dificilmente deixaremos de encontrar
pessoas conhecidas do nosso passado.
“Lembra
daquela professora que na escola era muito rigorosa e só
te dava notas mais baixas? E que você, com isso, se sentia
incapaz e inseguro? Pois é. Será que a tua chefe
de hoje no teu trabalho, que você de antemão não
gosta e sente dificuldade de se aproximar, não lembra de
alguma forma aquela tua professora? “ È isso, gente,
vale parar para identificar esse jogo de imagens inconsciente
nas nossas relações. Caso contrário, podemos
ficar presos sempre e somente àquelas figuras que nos marcaram
em determinado momento de nossa vida. Seja no aspecto positivo,
digamos, amando demasiadamente alguém, ou negativo, rejeitando
simplesmente alguém que nem sequer conhecemos melhor.