Acometida
por uma terrível crise de insônia logo que cheguei
a Pequim, decidi recorrer à medicina tradicional chinesa
e à acupuntura antes de me render às tarjas pretas.
Eu já era adepta da acupuntura no Brasil, mas nunca havia
feito na China, mesmo tendo morado aqui durante um ano entre 2004
e 2005.
A primeira coisa que me impressionou na experiência foi ver
que os chineses continuam a recorrer à medicina tradicional,
apesar do enorme avanço da medicina ocidental no país.
Fui à mais antiga farmácia de Pequim, fundada em 1669,
e havia filas para atendimento e um feroz movimento atrás
do balcão na preparação das fórmulas
prescritas pelos médicos _que possuem salas de atendimento
na própria farmácia.
A médica que me atendeu é especializada no tratamento
de insônia. Colocou três dedos no meu pulso e escutou
durante alguns minutos. Depois, pediu para ver minha língua
e deu o diagnóstico: eu estava com muito calor no fígado.
Paradoxalmente, deveria parar de tomar bebidas geladas e de comer
comidas cruas durante uma semana. Ao mesmo tempo, ela prescreveu
uma receita com quase 20 ingredientes, entre os quais raízes,
casca de árvores, flores, e frutas. A fórmula é
literalmente cozida na farmácia e embalada em pacotinhos
de plástico. Eu deveria tomar dois por dia, pela manhã
e à noite. O gosto faz jus à fama de os remédios
chineses serem quase intragáveis.
Com a ajuda da minha intérprete, fui a um hospital especializado
em acupuntura e, de novo, me surpreendi com o grande número
de pessoas. Lá, o que é estranho para um ocidental
é a falta de privacidade no atendimento, com a qual os chineses
lidam sem nenhum problema. Minha médica fica em uma sala
pequena, com três macas. Enquanto me atendia, pessoas entravam
e saíam da sala, os próximos pacientes esperavam na
porta e os que já haviam sido atendidos estavam nas macas,
cheios de agulhas. Quando chegou a minha vez, a dra. Jiang começou
a colocar as agulhas enquanto conversava animadamente com a paciente
que estava saindo, uma outra médica e minha intérprete.
Percebi que falavam de mim ao identificar as palavras Baxi (Brasil)
e jizhe (jornalista). Depois de colocadas as agulhas, uma assistente
veio conectar a algumas delas fios de estímulo eletrônico,
algo que nunca havia experimentado no Brasil e que adorei. Quando
o aparelho é ligado, as agulhas começam a vibrar,
o que aumenta o efeito da terapia. Depois da acupuntura, a médica
utiliza outra técnica, chamada de ba guan, que consiste na
aplicação de ventosas nas costas do paciente, que
têm um efeito de sucção da pele e deixam enormes
marcas circulares. Já deveria ter feito seis sessões,
mas só consegui ir a três, por absoluta falta de tempo.
Funcionou? A acupuntura tem um ótimo efeito, mas eu deveria
estar fazendo duas sessões por semana e não uma. Quanto
ao remédio...Talvez porque eu tenha continuado a tomar gelado
e comer comidas cruas (como viver sem frutas?), não senti
nenhum efeito. E, sim, me rendi à tarja preta.
Aí vão algumas fotos da aventura médica:
Atendentes manipulam receitas na farmácia de medicina tradicional
mais antiga de Pequim
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